Dois Prédios Gêmeos que fizeram parte
da remodelação do Anhangabaú.
Dois prédios gêmeos construídos na década de 1910 e que faziam parte do plano de remodelação do Anhangabaú concebido pelo urbanista francês Joseph Bouvard. Foram projetados pelo agrônomo baiano Samuel das Neves e por seu filho arquiteto formado na Universidade da Filadélfia Cristiano das Neves ( o mesmo da Estação Sorocabana/Júlio Prestes), e seu proprietário era o Conde de Prates. Eram os prédios mais suntuosos da cidade na década de 1910, e sediaram diversas instituições importantes, como a Prefeitura Municipal, a Câmara Municipal e o Automóvel Clube.
Apesar de seu valor histórico e arquitetônico, o primeiro pavilhão foi demolido no início dos anos 50 para a construção do edifício Conde de Prates, e o segundo em janeiro de 1970, dendo sido erguido em seu lugar o edifício Mercantil Finasa.

 


CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE CONDE DE PRATES

Texto escrito pelo ilustre Prof. Máximo Ribeiro Nunes, do Conselho Diretor da Sociedade Amigos da Cidade, publicado em novembro de 1960 no jornal o Estado de São Paulo.

Os "erros ortográficos" existem em função do texto estar transcrito na integra de sua publicação.

A 8 de novembro de 1860, nascia em São Paulo, o ilustre paulista Eduardo Prates, mais tarde Conde de Prates, filho do Dr. Fidêncio Nepomuceno Prates e de Dona Inocência da Silva Prates, filha do Barão de Antonina. Sentindo muito cedo pendores e inclinação pela vida comercial, devotou-se do ramo dos negócios ao qual emprestou o seu espírito dinâmico e a sua invulgar capacidade de trabalho. Desposando a senhora Antônia dos Santos Silva, de velha estirpe paulista, depois Condêssa de Prates, filha do Barão de Itapetininga e da Baroneza de Tatuí, família das mais nobres e honrosas tradições brasileiras, o Conde alargou o seu campo de atividades, tornando-se adiantado agricultor e diligente pecuarista. Pelo seu espírito empreendedor, pelo seu esclarecido tino comercial, por seus marcantes sentimentos altruísticos e pelo elevado porte moral de sua personalidade, tornou-se um dos vultos mais respeitáveis e preeminentes de sua época. Se a sua inteligência e capacidade se voltaram para o mundo dos negócios, os seus elevados sentimentos foram consagrados aos desconhecidos e pequeninos a quem sempre generosamente amparou.

Fidalgo e nobre, bom e generoso, patriarca de uma das famílias de mais ricas e respeitáveis tradições de nossa sociedade, foi também o Conde de Prates um paulista autêntico que, com fibra patriótica, amou profundamente a sua terra ligando-lhe o nome aos maiores e mais significativos acontecimentos de seu tempo. A nobreza e a solenidade de seu porte, a fidalguia de seu trato, o título nobiliárquico de que era portador e sua decorosa seriedade que obrigava ao respeito, fizeram-no pontificar nos mais expressivos meios sociais e econômicos de São Paulo. Conde de Prates foi um incansável semeador de bondade e um infatigável impulsionador de relevantes empreendimentos. Possuidor de fartos recursos, não obstante absorto pelas imensas responsabilidades de suas emprêsas e pelo destaque das posições a que freqüentemente era guindado, tinha como suprema aspiração socorrer àqueles que se valiam de sua desmedida generosidade.
Eis porque a sua inconfundível personalidade fixou para sempre em São Paulo as impressões inesquecíveis de sua peregrina bondade. Aristrocrata de escól, de espírito subtil e coração adamantino o seu nome se perpetua na galeria glorificada de muitas igrejas, hospitais e orfanatos como láurea de gratidão imperecível. Homem de fé e de ação, a sua vida foi uma obra de arte e sua individualidade um símbolo de primor.
Banqueiro, capitalista, comerciante e lavrador, de beleza rara foram porém os seus gestos de filantropia e humanidade.

Na história de São Paulo, erigem-se vultos extraordinários, entre os quais fulgura o do Conde de Prates cuja existência foi um marco luminoso e um exemplo edificante à gerações que o vêm sucedendo.
Vanguardeiro de tantas e imperecíveis iniciativas, serenamente austero, elegante no trato das relações humanas, de notável tino administrativo, criou sempre ao seu redor um ambiente de cordialidade e simpatias, mercê de suas virtudes e da firmeza de seu aprimorado caráter.
Ao longo de seus 68 anos de existência, mourejaram suas idéias e seus sentimentos, em estilo edificante e verdadeiramente raro. Quantas esperanças floriram à sombra dos altares com a sua ajuda anônima e silenciosa! Ninguém jamais bateria à porta de seu palácio sem haver recebido o consôlo de uma ajuda.

Para se tracejar o perfil da alma nobre do insigne e saudoso paulista, bastaria dizer-se que os episódios mais empolgantes de sua vida foram aquêles em que deu muito de si e do que era seu aos que nada tinham ou pouco podiam esperar. Não obstante ocultar o bem que fazia e refugiar-se na mais encantadora e escrupulosa simplicidade os seus benefícios e generosos donativos não conseguiram ficar para sempre no obscurantismo. Eis porque o Papa Leão XIII houve por bem conceder-lhe o honorífico título de Conde e de Condêssa à sua espôsa. A dignificante honraria pontíficia foi a solene gratidão da Igreja Católica aos excelsos sentimentos de bondade e de caridade cristã do magnânimo e ilustre casal. Não é fácil reconstruir em palavras, uma vida tão intensamente profícua e tão pontificada dos mais assinalados serviços ao bem comum.
Nem seriam os meus estreitos recursos os mais indicados para fazê-lo. Do que sei e conheço, entretanto, posso dizer que a sua inteligência e as suas energias morais fizeram com que ainda hoje com reverente saudade resplandeça a sua lembrança nas mais nobres instituições desta cidade.
Membro da 1ª Comissão Fundadora da nova Sé Catedral Metropolitana de São Paulo em 1912, recebeu o título de grande benemérito.

A preocupação pela infância desamparada, foi uma constante em sua vida. Por longos anos foi Grande Protetor do Orfanato Cristóvão Colombo, desvelando-se com paternal carinho pelos pequeninos orfãos os quais freqüentemente visitava e que sentiram bem de perto as emoções do Conde e a sua benevolência e prodigalidade. Apostolando o amparo à pobreza, não foi todavia insensível ao sofrimento físico de seus semelhantes. Exerceu a verdadeira caridade ao ser por longos anos generoso Mordomo da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, a mais santa de tôdas as casas depois da Casa de Deus. Do Convento de Nossa Senhora da Luz, foi, por largo espaço, Síndico e Protetor. E de tal forma o foi que, embora se tratando de Comunidade Contemplativa de freiras reclusas, tinha o Conde licença especial do sempre lembrado Dom Duarte Leopoldo e Silva para ver e ouvir as religiosas auscultando-lhes as dificuldades e ouvindo-lhes os anseios do Convento.

Expargiu, indistintamente, por esta cidade de São Paulo a sua incontrolável bondade.
Assim é que foi também Grande Benemérito da Casa da Divina Providência e Provedor e Protetor da Igreja de Santo Antônio, da Praça do Patriarca, que lhe mereceu o mais dadivoso amparo. As Casas de Educação não lhe ficaram esquecidas. E o Liceu Coração de Jesus foi uma delas.
Quem entrar pelo vetusto Educandário, deparará logo em lugar de honra com o quadro a óleo do venerando Conde, grande benfeitor daquela glória do Ensino, no Brasil, que assim o consagrou na sublimidade de sua gratidão.
Foram tantos e tão grandes os benefícios que ali prestou que não é possível aqui enumerá-los.

Lembrarei apenas que, certa vez, incendiando-se a cozinha do colégio, foi êle quem por 30 dias, manteve a alimentação de 400 alunos internos. Gestos assim tão bélos e tão raros edificam os que praticam. No comêço dêste século, foi êle como que o pai dos Salesianos de São Paulo. A para de auxílios financeiros, ofereceu os sinos que ainda hoje ornamentam o campanário do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, doando ainda em nome da senhora Condêssa o altar de Santo Antônio, mandando mais tarde restaurar o grande órgão que houvera sido ofertado por sua nobre sogra, a Baronêza de Tatuí. Católico por convicção, foi Provedor da Irmandade de Nosso Senhor dos Passos e Irmão do Santíssimo da Sé Catedral de São Paulo. Por tudo isso e por muito mais que as minhas palavras desconhecem ou não sabem dizer, recebeu também êle o Título de Comendador Locotenente da Ordem Eqüestre do Santo Sepulcro de Jerusalém. Que coisa extraordinária e fascinante essa a de poder aliar uma vida tão espiritual e caritativa ao mundo das fecundas e preocupantes realizações materiais! Pois o Conde realizou êsse prodígio. Cidadão de pensamentos sádios e de retas intenções arrebatava-se também pelos grandes e audaciosos empreendimentos materiais.

Vivia-lhe o espírito progressista do pioneirismo. Assim é que foi fundador e Presidente do Banco de São Paulo que ainda hoje opera e prestigía os meios financêiros da Capital. Foi fundador e 1º Presidente da Sociedade Rural Brasileira para cujo crescimento e prosperidade concorreu preponderantemente. A Companhia Paulista de Estradas de Ferro, a mais perfeita organização do gênero na América Latina, teve-o por muitos anos como seu Vice-Presidente e Diretor. Fundou e foi Presidente da Companhia de Armazens Gerais do Estado de São Paulo e de muitas outras emprêsas, tais como, a Companhia de Minerais Santa Rosa, a Companhia Pastoril de Barretos, a Companhia Paulista de Navegação e a Associação Comercial. As práticas desportivas também lhe merecem a simpatia.
Tanto assim que em 1911, foi fundador e 1º Presidente da Sociedade Hípica Paulista que cultiva o mais elegante e aristrocráta dos esportes. Devotado à sua terra, o Conde de Prates contribuiu decisivamente para o seu engrandecimento e vertiginoso progresso.
Atendendo que sua cidade estava predestinada a um desmesurado desenvolvimento edificou 3 prédios no centro da cidade, os mais importantes da época, cuja construção constituiu arrojado cometimento e num gesto característicamente seu dôou à cidade de São Paulo várias áreas de terreno na rua Líbero Badaró e no Vale do Anhangabaú. Não hesito um só instante em afirmar que o Conde de Prates foi, no passado, um dos grandes beneméritos desta metropóle tentacular. Consagrando-se também à lavoura, foi agricultor progressista, proprietário da Fazenda de Santa Gertrudes, cujo nome foi dado à estação e à vila proxima hoje elevada à categoria de município. A 162 Klmts. da Capital, a Fazenda de Santa Gertrudes recebeu, no passado e hoje hospeda, figuras ilustres e personalidades da mais alta expressão mundial.

Homem de admirável visão, de experiência objetiva, as suas expansões foram sempre de grande alcance o que o levou a transformar a sua propriedade agrícola naquêle empolgante cenário de beleza e de produtividade.
Era para lá que se retirava ao encontro de justos momentos de lazer em meio à poesia e à solidão dos lagos, das arvores, dos pomares e de seus cafezais. Hoje aquela béla e tradicional propriedade pertence ao Cónde e Condêssa Guilherme de Prates. Paulista de lei, de ouro de melhor quilate, deixou para a posteridade dignificantes exemplos de honradez, de vida laboriosa e de indizível bondade.
Lembro-me, com fidelidade que a mim mesmo surpreende, de quando me chamou à sua cabeceira dois dias antes morrer. Era então aluno do Liceu Coração de Jesus. Perguntou-me pelos padres e pelo Colégio. Relembrou sacerdotes, cênas, personagens e fatos memoráveis que eu não chegara a conhecer. Depois pediu que me retirasse. Nos derradeiros momentos de sua vida dava a prova da sua velha admiração e grande aprêço pela Obra Salesiana.

Sinto que o eminente brasileiro procurou estimular-se na perfeição de sua vida, preparando-se para a eternidade. Brazões, honrarias e dignidades nem de leve lhe conseguiram influenciar o espírito. A altanaria de seu porte escondia uma grande modéstia e as melhores virtudes. De seu consórcio com a Condêssa de Prates deixou quatro filhos: Conde Guilherme Prates, Eduardo dos Santos Prates e Joaquim dos Santos Prates e dr. José Prates, já falecidos.
A 22 de março de 1928, o povo de São Paulo era surpreendido com a desoladora notícia de seu falecimento. Uma tarja de luto cobriu tristemente a Paulicéia que êle tanto amara. A sociedade paulistana soluçou o desaparecimento daquêle que em vida tanto a enobrecera e mais ainda a dignificara.

Hoje, ao celebrar-se o centenário do seu nascimento, a cidade de São Paulo, os homens do seu tempo e as instituições a que pertenceu ou se valeram de seu amparo, evocando a figura de um dos mais completos varões nascidos nesta abençoada terra, que é orgulho do mundo Latina, rendem-lhe comovidamente a reverenciosa homenagem da sua sempre viva gratidão por todo o bem que aqui fez e pelos inapagáveis exemplos que aqui a todos legou.
Que as préces que hoje se erguerem aos Céus, e as flores no Campo Santo se depositarem, sejam o símbolo indelével da permanência de nossa saudade à imorredoura memória do inolvidável Conde paulista.


- Artigo retirado da Revista da Sociedade Rural Brasileira, "A RURAL".
Edição - 476 de Dezembro de 1960.
Escrito por Alberto Prado Guimarães

Obs: Os "erros ortográficos" existem para manter a cópia do texto na integra de sua publicação.

(Relembrando a vida agropecuária, fatos e problemas do passado, em confronto com os da atualidade.)



O PRIMEIRO PRESIDENTE DA RURAL


Comemorou-se em 8 de novembro último, o Centenário do Nascimento do Conde de Prates, o primeiro presidente da Sociedade Rural Brasileira.

Filho de família riograndense, sendo seu pai o Dr. Fidêncio Prates, médico doutorado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e sua mãe D. Inocência da Silva Prates, filha dos Barões de Antonina, desde logo se manifestou Eduardo Prates infenso à política em que, naturalmente, teria feito carreira, visto como seu pai fôra por duas vêzes deputado pela Assembléia Geral na Legislatura do Império. Era costume no tempo da monarquia, transmitirem-se aos filhos essas posições representativas, de modo a se manter a tradição da família de co-responsável na administração pública. Êsse desinteresse pela política êle a comprovou quando, por ocasião da proclamação da República, a sua projeção social em nosso meio, guindar-lhe-ia fàcilmente aos mais altos postos já por si e pelo fato de ser primo-irmão de um prócer da nova situação, de grande prestígio no Rio Grande do Sul em todo o país, o estadista até hoje lembrado com respeito que foi Julio Prates de Castilho.

Ainda muito moço, em 1886, contraia matrimônio com a Sra. D. Antonia dos Santos Silva, filha do Barão de Itapetininga e irmã da Marquesa de Três Rios, família de grandes cabedais, inclusive proprietária de grande área central na velha cidade de Piratininga, onde, Eduardo Prates ficou possuidor de uma verdadeira fazenda no local em que se encontram hoje o Viaduto do Chá - o Largo do Piques - Ruas Líbero Badaró e Formosa, enfim o grande centro da atual Paulicéa.

Espírito empreendedor e meticuloso nos negócios, distinguiu-se logo nos meios comerciais e industriais, figurando o seu nome desde então na presidência e direção das maiores organizações da época. Assim foi diretor da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, do Banco de São Paulo, fundador e presidente da Companhia Central de Armazéns Gerais e da Companhia Minerais "Santa Rosa"; fundador e presidente da Companhia Frigorífica e Pastoril de Barretos e da Companhia de Navegação, além de iniciador de muitas outras emprêsas que floresceram grandemente com a sua hábil direção, das quais daremos como exemplo a Associação Comercial de São Paulo e a Companhia Nacional de Auto - Transportes, a primeira que realizou o serviço de auto-ônibus no Brasil.

De tenacidade inquebrantável mostrou-se, outrossim, quando sem medir sacrifícios, se dispôs a reunir glebas de uma fazenda onde se encontravam 32 condomínios, em uma só propriedade - a até hoje afamada Fazenda "Santa Gertrudes", nas proximidades de Rio Claro, a sala de visitas para os viajantes de escól. Aí o seu capricho de fazendeiro adiantado se fêz destacar não só pelo cuidado com que tratava os seus cafèzais, como, pela variedade de plantações e aparelhagem perfeita para então, atendendo nos mínimos detalhes da fazenda, quer na parte de residência senhorial, máquinas de benefício, arborização, pomares e a parte social dos colonos, a começar pela rica capela até hoje carinhosamente conservada pelo seu filho Guilherme. Lá na Fazenda "Santa Gertrudes", como em São Paulo cuidando da Igreja de Santo Antonio por êle mantida na parte mais central da cidade de São Paulo, continua o filho extremoso a obra religiosa de sua piedosa progenitora a Condessa de Prates que, em consonância com a generosidade de seu espôso, sempre contribuiu a mancheias para as instituições pias, como a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Liceu do Sagrado Coração de Jesus, Orfanato Cristóvan Colombo, Recolhimento da Luz e quantos outros que atestam o espírito cristão da nossa grei. Ao se formar em nossa Capital uma Comissão Promotora da Construção da Nova Catedral, foi o Conde de Prates convidado pelo saudoso arcebispo D. Duarte Leopoldo e Silva, para presidência dessa Comissão nobilíssima, tendo figurado como dos mais entusiastas e maiores contribuintes para a ereção do monumental templo-orgulho de São Paulo e do Brasil. Êsses esfôrços e munificiência, levaram o Arcebispo a conceder-lhe o título nobiliárquico de Conde da Santa Sé.

Quando foi de se realizar o plano Bouvard, de transformação da cidade provinciana na moderna "urbs", deixando de lado qualquer interêsse pessoal, com magnanimidade se colocou o Conde de Prates ao lado do Prefeito Antonio Prado, contribuindo com a demolição de prédios, alargamento de espaços intermediários e plantação de jardins e, sobretudo com a construção de valiosíssimos edifícios de especial arquitetura, adequada ao embelezamento do Vale do Anhangabaú, para que a nossa capital viesse a ostentar êsse aspecto de metrópole que tanto encanta os estrangeiros e que lhe dá a fisionomia artística, por que é reconhecida em todo o mundo.

Êsse exemplo de abnegação e amor à sua terra, deve ser ainda hoje encarecido, quando não se vêm mais comumente desses gestos de fidalguia.

Tendo sido grande em tantos ramos de atividade, o título de que mais se orgulhava era o de agricultor e pecuarista, título êsse que o havia elevado aos mais altos píncaros, sendo modelar a sua Fazenda "Santa Gertrudes". Em Santa Gertrudes, além de encontrarem os visitantes ilustres um grande adiantamento agronomico, iam êles desfrutar os encantos da hospitalidade paulistana nos seus mais altos requintes de distinção e de fidalguia.

Falecido em 23 de março de 1928, a sua memória é sempre reverenciada nesta casa, de que foi fundador e presidente efetivo e honorário, como dos mais adiantados agricultores e dos mais prestantes cidadãos da terra bandeirante.


EPISÓDIOS PITORESCOS

A propósito da comemoração do Centenário de Nascimento do Conde de Prates, cabe aqui um fato pouco conhecido, mas que faz reviver as virtudes da antiga gente paulistana, através das gerações que se vão sucedendo, zelosas das tradições avitas.

Em certo momento, pretendeu-se, a título de remodelação da cidade, demolir a Igreja de Santo Antonio, o que com o valor enorme da desapropriação, poderia dar lugar a ser o templo instalado mais magestosamente em outro lugar. Nessa ocasião o Conde Guilherme Prates, herdeiro das qualidades senhorís de seus ilústres pais, obtemperou ao Arcebispo que não seria com a sua aquiescência que tal se faria, uma vêz que era mantida por si e pela família a Igreja pelos seus antepassados ali erigida no coração da cidade. As observações dos filhos do Conde de Prates, colocaram fundo no coração de D. Duarte, que assim impediu se retirasse da hoje Praça do Patriarca o templo onde rende preito de espiritualidade o temperamento irrequieto do paulistano, mal apontado como materialista e ganhador de dinheiro. Em Nova York, em Wall Street, visitando a modesta Trinity Church, lembramo-nos da Igreja de Santo Antonio e do belo gesto do filho do Conde de Prates defendendo a tradição de religiosidade do nosso povo. Também lá no torvelinho dos negócios é na Casa de Deus, pequena e simples, onde se apaziguam as paixões e se amainam as ambições da moderna Babilonia que é Nova York.


São Paulo, Dezembro de 1960.