A
Fazenda Santa Gertrudes, com mais de um século de existência,
1854 - 1998, ao contrário de muitas fazendas cafeeiras que tiveram
um curto período de vida, venceu todas as crises e mudanças
sociais e econômicas advindas durante todo esse período constituindo-se
num caso raro deste período.
Alicerçada na sólida fortuna da família proprietária, que permitia
investimentos em longo prazo em culturas e maquinarias na eficiente
organização administrativa, na observância fiel a legislação,
chegando muitas vezes a antecipar-se aos cuidados legais, nas
boas relações de trabalho que não chegaram a gerar crises agudas,
a |
"Florada
do Café" de Antonio Ferrigno.
Óleo
sobre tela, pintado em 1903 na fazenda, hoje exposto no Museu
do Ipiranga. |
fazenda
Santa Gertrudes sempre procurou se adaptar em lugar de sucumbir, as
novas circunstâncias. Passou o café, mais a existência desta fazenda
como instituição continua, e o ar de decadência ainda não pairou sobre
ela.
Esta fazenda constitui, pois um marco na história agrária de São Paulo.
A Fazenda Santa Gertrudes originou-se de uma sesmaria, a do Morro
Azul (a sesmaria do Morro Azul foi concedida, em 1817, a Joaquim Galvão
de França, José Galvão de França, moradores de Itu, e Manoel de Barros
Ferraz da Freguesia de Piracicaba) a semelhança de outras importantes
fazendas de cana e café como Ibicaba, Morro Azul e Paraguaçu.
Como Ibicaba, que pertenceu a Nicolau de Campos Vergueiro, Santa Gertrudes
também teve como ponto de partida as terras de um engenho. Sua origem
prendeu-se ao Sítio Laranja Azeda que Amador de Lacerda Rodrigues
Jordão (era filho do Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, um dos homens
mais notáveis de seu tempo pela sua riqueza e prestígio, e de Dona
Gertrudes Galvão de Moura Lacerda, dama honorária do passo imperial,
figura representativa da sociedade paulista do século XIX e proprietária
de várias fazendas.
Amador de Lacerda Rodrigues Jordão casou-se em 1852 com Maria Hypólita
dos Santos Silva, filha do Barão de Itapetininga; foi agraciado em
1858 com o título de Barão de São João do Rio Claro; foi deputado
provincial por diversas legislaturas e deputado geral), futuro Barão
de São João do Rio Claro, recebeu na partilha dos bens de sua mãe
Gertrudes, realizada em 1848.
O Sítio denominado Laranja Azeda, conta à tradição que Amador de Lacerda
Rodrigues Jordão teria mudado para Santa Gertrudes em homenagem a
sua mãe. Mas esta designação passou a predominar na documentação,
a partir de 1856. Inicialmente voltada para o cultivo de cana, com
vistas à produção do açúcar e da aguardente, a fazenda Santa Gertrudes
pouco a pouco foi deixando de cultivar este produto e paralelamente
introduzindo o café.
Em 1857 a fazenda é relacionada como fazenda de açúcar e café, ocupando
uma área aproximada de 585 alqueires. No ano de 1861 que marcou o
aparecimento do café com a principal atividade agrícola do município
de Rio Claro, a propriedade produzia 6000 arrobas de café, 2000 de
açúcar e 30 pipas de aguardente.
Entretanto, por volta de 1870, apenas 20 anos a sua formação, a fazenda
Santa Gertrudes vinha a ser uma das maiores de São Paulo e seu proprietário
um dos maiores fazendeiros de seu tempo com lavouras de riquíssima
produção. Quando do falecimento do Barão São João do Rio Claro, em
1873, a Fazenda Santa Gertrudes passou para sua esposa, Maria Hipólita
dos Santos Silva. A Baronesa de São João do Rio Claro, em 1876, contraiu
segundas núpcias com o Barão e posteriormente Marques de Três Rios
que passou então a dirigir os destinos da fazenda até 1893.
Aliás,
o ano de 1876 se constitui um marco na história da Fazenda Santa
Gertrudes não só pela mudança de seu proprietário como também
pela chegada dos trilhos da Companhia Paulista de Estrada de
Ferro a Rio Claro.
Pouco mais de 40 anos após a sua formação, em 1893, a Fazenda
Santa Gertrudes cobria uma área de aproximadamente 700 alqueires,
portanto sua expansão já se fizera por mais de uma centena de
alqueires; produzia 30000 arrobas de café, quintuplicara sua
produção em 1861 quando o número de arrobas chegava apenas a
6000, colocando-se como o maior produtor de café do município
de Rio Claro. |

"Colheita
do Café" de Antonio Ferrigno.
Óleo
sobre tela, pintado em 1903 na fazenda,
hoje exposto no Museu do Ipiranga |
A sede da fazenda, com requintes de uma verdadeira
casa urbana, fato normal em São Paulo no período áureo da expansão
cafeeira, consistia de uma verdadeira casa senhorial. Os terreiros
em parte atijolados e as dependências para máquinas de benefício do
café, situados nas proximidades da sede completavam-se com as colônias
espalhadas entre os 600000 pés de café.
Oitenta e cinco casas para colonos formavam o núcleo habitacional
dos trabalhadores. Os bens móveis e imóveis da fazenda foram avaliados
em 1893 e as transformações operadas pelo café de 1848 a 1893 aumentaram
aproximadamente em 90 vezes o valor da propriedade nesses 45 anos
de atividade cafeeira.
Em 1893, com o falecimento do Marques de Três Rios e da Marquesa nos
anos seguinte, a fazenda foi herdada por Eduardo Prates casado com
a irmã da Marquesa de Três Rios, pois aquela não deixará descendentes
diretos. Apesar das alterações resultantes da mudança de proprietário
em 1895 não houve quebra no ritmo ascendente da fazenda.
Eduardo Prates acelerou ainda mais. Tornou-se proprietário da fazenda
num período excepcionalmente favorável à expansão do café. Eduardo
Prates conde pela Santa Sé, de acordo com o título agraciado pelo
Papa Leão XIII, era ativo homem de negócios, o capitalista de São
Paulo, em 1895 se viu fazendeiro de café, proprietário da Fazenda
Santa Gertrudes, considerada uma das mais importantes cafeeiras.
Não era Eduardo Prates o pioneiro em terras novas a despender energia
e capacidade na luta contra a natureza, mas o proprietário enérgico
e capaz, preocupado em estabelecer uma tecnologia mais avançada para
o maior desenvolvimento de sua propriedade. Era o citadino transformado
em fazendeiro, que ao receber como herança à fazenda (que pertencera
à irmã de sua esposa), levou para o campo toda a sua vivência de homem
de negócios, sempre aberto às inovações. Dedicava-se as atividades
comerciais (importações e imóveis urbanos), bancárias, ao fomento
da companhia paulista de estradas de ferro, da companhia de armazéns
gerais de São Paulo e ainda a outras companhias de transportes e indústrias.
Atuante, como exigia sua época Eduardo Prates foi membro de associações
para os seus interesses econômicos como a associação comercial e agrícola
de São Paulo e a Sociedade Rural Brasileira. Eduardo Prates, entre
os muitos afazeres empresariais da sua vida, completava com atividades
religiosas e filantrópicas, o que no Brasil, país oficialmente católico,
não era só prova de fervor religioso, como proporcionava as pessoas
que as executavam um grande prestigio social e que a Eduardo Prates
valeu, inclusive, o título de conde pela Santa Sé.
Em 1898 a sede já era iluminada a gás acetileno e quatro anos mais
tarde 1902, um contrato com a central elétrica de Rio Claro trouxe
este novo tipo de energia e iluminação para a fazenda. Em 1904 o telefone
colocava a propriedade em contato com vários núcleos urbanos. Uma
maior necessidade de energia para movimentar suas máquinas e as constantes
quedas de energia elétrica prejudicavam a produção, o que levou Eduardo
Prates a romper com a central elétrica de Rio Claro e acentou um motor
Wolf, instalando assim uma usina elétrica própria.

"Lavagem
do Café" de Antonio Ferrigno.
Óleo
sobre tela, pintado em 1903 na fazenda,
hoje exposto no Museu do Ipiranga |
O
desenvolvimento da fazenda Santa Gertrudes e a construção da
estação da companhia paulista de estrada de ferro nas suas proximidades
fizeram com que surgisse e prosperasse o atual município de
Santa Gertrudes (1948) A proximidade da fazenda com a capital
Paulista - apenas quatro ou cinco horas por via férrea, permitia
ao viajante tomar contato com uma fazenda cafeeira em um ou
no máximo dois dias, tempo suficiente para percorrer as instalações
e plantação.
Os visitantes da fazenda eram muitas vezes convidados pelo próprio
governo do estado de São Paulo; outros convidados do proprietário
ou de seus amigos. As visitas vinham geralmente da capital em
trens da Companhia Paulista de Ferro. |
A importância da fazenda Santa Gertrudes não reside apenas no fato
dela ter sido uma propriedade modelar na cafeicultura paulista, digna
de ser vista por ilustres personalidades. A Fazenda Santa Gertrudes
foi a mais importante propriedade cafeeira do município de Rio Claro,
no velho oeste paulista. Propriedade modelo era um exemplo da complexa
empresa capitalista cafeeira.
Esta fazenda possuía a maior concentração de trabalhadores
estrangeiros e seus descendentes, dentre as fazendas da região. Foi
possível localizar para o período de 1897 - 1902 famílias italianas
que se destinaram a fazendas de Santa Gertrudes, assim como famílias
nacionais, cearenses, que em 1920 também se encaminhavam para aquela
propriedade. Para o período de 1903 - 1914 os registros das hospedarias
anotam algumas poucas famílias italianas, austríacas, portuguesas
e espanholas que se dirigiram àquela fazenda, já para 1915 - 1920
os livros não apresentam nenhuma família para Santa Gertrudes. Porém
os documentos da fazenda mostram a chegada de várias famílias italianas
e espanholas, procedentes da Argentina, e para 1918 - 1919 a entrada
de japoneses nesta propriedade. Para o ano de 1920 os registro das
hospedarias mostram que mais de uma centena de trabalhadores nacionais,
cearenses, se encaminharam para aquela fazenda. Para o período de
1921 - 1930, quando a imigração nacional começou a sobrepujar a estrangeira,
a hospedaria não registra mais imigrantes em direção àquela fazenda.
Nos livros preservados, e que compõem o acervo da fazenda Santa Gertrudes,
encontram-se informações minuciosas sobre a família trabalhadora,
no que diz respeito a seu tamanho, sua força de trabalho, sua produção
e seus rendimentos monetários, além de fornecer algumas pistas sobre
a lavoura de subsistência por ela praticada. Fazendas Trabalhadoras
na Fazenda Santa Gertrudes Na Fazenda Santa Gertrudes predominavam
os trabalhadores europeus, tanto no cultivo de café como, em atividades
complementares. Os italianos e seus descendentes sempre se constituíram
maioria entre os colonos; a seguir vinham os portugueses, espanhóis,
e alguns poucos de origem germânica.
Os japoneses não se adaptaram ao trabalho nesta propriedade e os nacionais
até 1920 foram uma pequena minoria, aparecendo com mais intensidade
após esta data, quando uma grande leva de cearenses foi aí introduzida.
Entre 1895 a 1930, os trabalhadores de origem italiana representavam
em média, cerca de 65% da mão-de-obra empregada sobre o regime de
Colonato. Esta porcentagem foi maior nos anos próximos aos 1900, uma
vez que a entrada de italianos no Brasil foi, na virada do século,
também mais volumosa.

"Secagem
do Café" de Antonio Ferrigno.
Óleo
sobre tela, pintado em 1903 na fazenda,
hoje exposto no Museu do Ipiranga |
No
período de 1909 - 1918, quando a imigração italiana para o café
já havia declinado bastante, os colonos de origem italiana,
perfaziam em média, 64% do total dos colonos da fazenda. Para
cuidar de aproximadamente 1.000.000 de pés de café, esta propriedade
necessitava manter por volta de 150 famílias para não ter que
se utilizar trabalhadores avulsos assalariados.
O emprego destes, os camaradas, aumentava em muito o custo da
produção. Assim sendo, para evitar os prejuízos que a instabilidade
do colono provocava, o recrutamento constante de novas famílias,
era sempre a grande preocupação do fazendeiro. |
Cálculos efetuados mostram que na Santa Gertrudes deveriam ser contratadas,
em média, 35 novas famílias todo ano. Estas famílias proviam ou diretamente
das hospedarias dos imigrantes em São Paulo, ou eram arregimentadas
nas fazendas da redondeza e ou nos municípios da região. Famílias
para o Café: italianos e cearenses.
Os dados levantados na hospedaria dos imigrantes, sobre as famílias
com destino a Santa Gertrudes, referem-se principalmente as famílias
italianas que se dirigiram à fazenda entre 1897 - 1902 e as famílias
cearenses. Que adentraram nesta propriedade em 1920.
O tamanho e composição das famílias têm a ver
com a própria estrutura familiar do grupo no país de origem, no caso
da Itália, por exemplo, as famílias de pequenos proprietários, arrendatários
e meeiros de Veneto, que predominaram na imigração para o Brasil no
período anterior a 1885 eram famílias ampliadas, formadas por dois
ou três homens, respectivas mulheres e filhos. Já, as famílias de
Braccianti também de Veneto, que formaram a grande maioria de braços
para o café, após 1885, segundo depoimentos da época, possuíam cinco
pessoas no máximo, normalmente casal com filhos e algumas vezes integravam-na
o pai ou a mãe do chefe.
Para o período de 1903 - 1914 os registros das hospedarias anotam
30 famílias de origem européia para Santa Gertrudes. Destas 63% eram
italianas e austríacas e as restantes portuguesas e espanholas. Em
1920 foram introduzidos na fazenda, os cearenses num total de 132
famílias, e cujo tamanho era, em média de 4,8 pessoas. Diferentemente
das italianas, as famílias cearenses incluíram com muita freqüência
além de pais e irmãos do chefe, agregados, cunhados, tios, primos,
sobrinhos, avós e netos, numa clara demonstração de que se afrouxaram
as exigências quanto à composição da família que deveria receber a
passagem para a cafeicultura paulista.
Constata-se por outro lado, que mulheres chefes de família apareciam
com certa regularidade o que era bastante raro entre as famílias italianas
e européias de modo geral. No caso dos cearenses predominava como
chefe às viúvas, mas ocorriam também caso de mulheres solteiras com
filhos e mulheres casadas, sem marido, com filhos e outros parentes.
Para
a cafeicultura, o que mais importava era a quantidade de elementos
aptos para o trabalho preferencialmente homens. Entendia-se
por "pessoa de trabalho" o indivíduo a partir dos 12 anos de
idade até por volta de 60 - 65 anos. Interessava também ao fazendeiro
conhecer, além do número de elementos de trabalho, o tamanho
e composição da família, pois os demais membros poderiam ser
utilizados na colheita, o que podia ocorrer a partir de 7 ou
8 anos de idade.
A própria hospedaria dos imigrantes, como agente de mão-de-obra
vinculado, na época, aos interesses do café, além de classificar
os indivíduos por sexo, distribuía-os em três grupos etários:
de 0 a 12 anos, de 12 a 45 anos e mais de 45 |

"Benefício
do Café" de Antonio Ferrigno.
Óleo
sobre tela, pintado em 1903 na fazenda,
hoje exposto no Museu do Ipiranga |
anos, numa clara demonstração da importância de se conhecer o potencial
da força de trabalho destas famílias. Aliás, entreas exigências para
que a família conseguisse obter a passagem subsidiada era que ela
fosse de agricultores e tivesse pelo menos um elemento masculino entre
12 e 45 anos. Dos italianos (55%) e dos cearenses (60%) possuíam 12
anos ou mais e, portanto, eram considerados aptos para o trabalho.
Uma amostra significativa destas mesmas famílias,
localizada na documentação da fazenda Santa Gertrudes, no momento
de sua chegada na fazenda aponta que 49% dos italianos e também dos
cearenses eram "pessoas de trabalho". Esta amostra compõe-se de 26
famílias italianas com 126 pessoas, sendo 62 "de trabalho" e 101 famílias
cearenses com 498 pessoas sendo 246 "de trabalho". Partindo-se então
do pressuposto de que todos os homens maiores de 12 anos fossem trabalhadores
efetivos, poder-se-ia deduzir que a diferença entre as porcentagens
apresentadas acima (55% - 49% = 6% para os italianos e 60% - 49% =
11% para os cearenses) ficasse por conta das mulheres com mais de
12 anos que não participavam do trabalho produtivo. Aplicando-se estas
porcentagens as 26 destas famílias identificadas na documentação da
fazenda Santa Gertrudes obtém-se que 70 das 126 pessoas deveriam possuir
12 anos ou mais (36 eram homens e 34 mulheres).
Se todos os homens com 12 anos ou mais fossem considerados trabalhadores
e se o total de trabalhadores era 62, concluí-se que das 34 mulheres,
26 apenas estavam incluídas na força de trabalho. O retrato das famílias
imigrantes para o café, no momento de sua introdução a São Paulo,
deixa entrever que independente de sua origem e ao contrário do que
pretendia os fazendeiros, famílias numerosas e com muitos braços,
essas famílias não eram grandes. Possuíam tamanhos médios de cinco
elementos e relativamente jovens.
A Família no Trabalho do Café: Produção e Assalariamento O Colonato
ao combinar distintas formas de produção, proporcionava ao colono
um pagamento em dinheiro pelo trato e colheita e também a produção
da sua subsistência. O dinheiro que ele recebia pelo trato e pela
colheita geralmente não cobria as necessidades de sobrevivência da
família. Os salários pagos aos colonos variavam de região para região,
de fazenda para fazenda, de ano para ano, dentro de uma própria fazenda.
Seu valor estava diretamente ligado as condições oferecidas para a
lavoura de subsistência e praticamente independia das condições de
oferta e demanda de mão-de-obra.

"Expedição
do Café para a estação de trem"
de Antonio Ferrigno.
Óleo
sobre tela, pintado em 1903 na fazenda,
hoje exposto no Museu do Ipiranga |
Estes
salários provinham de três fontes: Do trato, de um certo número
de pés de café, pago por unidade de 1000 pés; o trato consistia
em fazer a limpeza das ervas daninhas de três a cinco vezes
ao ano; Da colheita paga pela quantidade de alqueires de café
colhido (um alqueire de café equivalia a 50 litros); Das diárias,
isto é, dias de trabalho avulso prestado ao fazendeiro conforme
as necessidades da fazenda.
A documentação da fazenda Santa Gertrudes permite verificar
o quanto cada uma das fontes de rendimento monetário representava
no total do rendimento familiar, quer em relação ao tamanho
da família, quer em relação à força de trabalho, quer ainda
em relação aos anos de boa ou má safra. |
O trato tanto em relação ao tamanho da família quanto ao número de
trabalhadores chegava a representar quase a metade do rendimento monetário
do colono, enquanto a colheita era responsável por cerca de 39% ficando
o restante por conta da diária e outros serviços.
Embora
estas proporções não variem muito quando se trata do tamanho da família,
o trato quando é relacionado com um número de trabalhadores tem uma
leve tendência a diminuir enquanto as outras fontes no geral tendiam
a aumentar ligeiramente a sua participação no rendimento, à medida
que aumentava também o número de trabalhadores no grupo familiar.
A documentação da fazenda Santa Gertrudes permitiu
estimar o orçamento de uma família colona naquela propriedade, para
o ano de 1913. Esta família, composta de marido, mulher, dois adolescente
entre 12 e 16 anos e mais uma criança pequena aparece na documentação
da fazenda como uma família de 5 pessoas e duas enxadas. Em 1913 ela
tratou de 5081 pés de café recebendo por isso a importância de R$
406$480, colheu 903 alqueires de café no valor de R$ 415$500 (este
foi um ano de excelente safra) e executou 33,25 diárias no total de
R$ 74$625, além de receber R$ 90$300 de gratificação pela colheita
paga pelo fazendeiro a todos os colonos que concluíram o ano agrícola
em Santa Gertrudes.
Portanto, esta família recebeu da fazenda a importância de R$ 986$905.
Isto posto, pode-se inferir que o sistema de colonato apresentava-se
vantajoso para as famílias que se e encontravam no ápice de sua capacidade
produtiva e soubessem se beneficiar ao máximo da mesma. As famílias
empregadas nas fazendas mais próximas aos núcleos urbanos possuíam
uma opção de vender o excedente da sua produção de subsistência e
fazer aí as suas compras evitando os preços mais altos cobrados no
armazém da fazenda, numa época em que os gêneros de primeira necessidade
estavam bastante caros.
Finalmente, é preciso ressaltar que para o sucesso ou insucesso da
família neste sistema também interferiam em outros fatores.

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